segunda-feira, 18 de abril de 2016

A colina mágica

Dentre as lembrança de minha juventude há uma que, vez ou outra, retorna à minha memória. É a de uma tarde de verão à beira mar. Era início de janeiro. E, naquele começo do dia, como fazia muito calor e a manhã estava esplendidamente luminosa, desci até a praia. O sol nascente, ainda sonolento e sem pressa de subir, parecia preludiar o intenso calor que o céu azul sem nuvens anunciava, enquanto uma brisa tépida e suave soprava do mar, trazendo o aroma das algas arrastadas pela espuma das ondas que as espargiam sobre a areia úmida.
Tudo isto me encantava e avultava como um convite absolutamente irresistível a fazer uma caminhada. Andando, muito vagarosamente, com os pés chapinhando na água espumejante, saí deambulando muito vagarosamente e sem destino traçado. Só desejava saborear cada instante daquela manhã mágica como se fosse um licor preciosíssimo que sorvemos a pequenos e pausados goles para alongar ao máximo o prazer da degustação.
Não sei quanto tempo havia caminhado, quando cheguei ao sopé de uma colina. Parei diante dela, perplexa com a sua imponente beleza! Vista de baixo, era muito alta e íngreme. Parecia-me haver um mistério naquele sedutor lugar, havia ali uma instigante energia que me atiçava a galgá-la. Era um desafio... E eu não resistia a algo que me desafiasse... Eu antecipava pela imaginação o prazer de subir e sentir sob meus pés descalços a maciez de veludo da grama e das finas ervas que a atapetavam. Pensava em um mundo de magia e beleza que eu poderia apreciar lá do alto.
A subida até o cume foi muito fatigante, mas eu estava resoluta a lá chegar. Nada me impediria de fazê-lo.
Enfim, eu venci os derradeiros metros, já sentindo câimbras nas pernas. Em um instante, como num passo de mágica, toda a exaustão e a dor desapareceram, diante do estado de maravilhamento que me invadiu.
Quantas paisagens eu havia visto, até aquela manhã, sem me comover, sem me encantar naquela proporção e naquela dimensão! A vista dos arredores e abaixo da colina era de uma radiante e silenciosa beleza que me tocava infinitamente a alma. 
O mar parecia um imenso espelho de água de um azul intenso, onde os raios luminosos do sol faziam cintilar os movimentos tremulantes das ondas com milhares de reflexos prateados. O mar lantejoulava exuberante e majestoso!
Eu, completamente seduzida pela paisagem paradisíaca, experimentava um doce e apaziguante sentimento de prazerosa solidão e de felicidade.
Estava lá no alto, um pouco mais distante da terra e dos homens, um pouco mais perto das nuvens e dos pássaros. Era como se estivesse em um quadro Van Gogh!

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