quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Desafios


“Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.

Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro!
Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?
Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.
Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro.
Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei.
E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste?
Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Aborrece-me que me louvem. Me cansa que agradeçam.
Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.
Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.
Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações?
Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti.

Baruch Spinoza

sábado, 19 de dezembro de 2015

O Laço de Fita


A arte engajada com a causa abolicionista de Castro Alves deu origem a alcunha que lhe foi atribuída de “poeta dos escravos”. Mas, apesar do vigor, do entusiasmo, da paixão e da veemência com que notabilizou o seu discurso poético de índole social, é preciso que seja, também, valorizada a sua peculiaríssima poesia lírico-amorosa, especialmente por sua qualidade de estilo e pela expressão límpida de uma sensualidade sem malícia que, ainda hoje, seduzem os leitores dos seus versos. O poeta baiano faleceu, solteiro, aos 24 anos de idade, deixando apenas um livro publicado - Espumas Flutuantes. 

O LAÇO DE FITA

Não sabes, criança? ’Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu’enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh’alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!

Meu Deus! As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
N'alcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... fico preso
No laço de fita.

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepita!
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c'roa...
Teu laço de fita.
                                        
COMENTÁRIO

“Teu laço de fita faz parte de “Espumas flutuantes”, único livro de Castro Alves publicado em vida. Nesse poema temos um sujeito lírico falando sobre a sua paixão por uma moça que, supostamente, está em um baile e usa como adereço nos cabelos um laço de fita. Esta figura feminina é uma mulher sedutora, esbanja sensualidade e atrai o poeta com seu insinuante laço de fita.
O amor de cunho platonizante, puro sentimento tal como era idealizado pela primeira geração de poetas românticos, não tem lugar no lirismo de Castro Alves. O amor, em sua lírica, é retratado sob a lupa da paixão, da sensualidade e do desejo amoroso. A mulher amada é envolvente, real, lasciva, ousada, e a paixão é a válvula propulsora que move o poeta a escrever versos de exaltação à relação amorosa que o envolve. Em suas poesias, a sensualidade e o erotismo explícitos são aliados a uma concepção poética do amor como sentimento vivido em sua plenitude seja no ponto de vista emocional, seja no que diz respeito à fruição do amor carnal. As mulheres que ama são sensuais e desenvoltas, ao contrário da musa das gerações anteriores, recatadas, intocáveis e vistas sob a ótica da idealização.
A “formosa pepita” do poema difere, portanto, da representação geral que os românticos pintavam da mulher: sempre pudica, inatingível, intocável, a virgem sonhadora. Ao contrário, aqui, há uma mulher que tanto atiça como sente desejo: “Por que é que tremeste? Não eram meus lábios.../Beijava-te apenas.../ Teu laço de fita.”.
Vale observar que o eu-lírico irrompe no poema usando uma linguagem que, embora aparente certa pureza, na verdade veicula um forte conteúdo sensual, projetado em um laço de fita. Tal adorno feminino, no entanto, condensa um fetiche, um desejo. O eu-lírico revela satisfação por estar sendo seduzido por uma moça com os cabelos adornados com um laço de fita que atiça a sua libido. 
Um rastro de sensualidade permeia todo o poema. Na sexta estrofe, instaura-se um certo clima de romance, de mútua atração: a jovem não consegue esconder que também sente desejo: "Por que é que tremeste? Não eram meus lábios... /Beijava-te apenas... /Teu laço de fita." Tal atitude por parte da moça não é comum na época, da mesma forma que a intimidade e ousadia do homem. O tratamento dado à mulher pelos demais românticos era bem mais distante e moderado.. 
Nas duas últimas estrofes, o eu-lírico reitera a sua situação de cativo do "laço de fita”: "Talvez da cadeia libertes as tranças/Mas eu... fico preso/No laço de fita.". Logo a seguir, fala sobre o lugar no qual irá encontrar- se com a amada, após o fim da festa: "Mas ai! Findo o baile, despindo os adornos/N'alcova onde a vela ciosa ... crepita". Fica, portando, a sugestão de que a ambos terão uma noite de amor. A sedução que exerce sobre o eu-lírico o laço de fita é reiterada nos versos finais do poema: "Pois bem! Quando um dia na sombra do vale/Abrirem-me a cova... formosa Pepita! /Ao menos arranca meus louros da fronte, /E dá-me por c'roa... /Teu laço de fita.". 
Como ficou claro nesse poema, as relações amorosas são apresentadas de uma maneira sensual e apaixonada, da qual resulta uma poesia que prima pela originalidade por poetizar o erotismo sem eufemismos, livre da sombra do pecado e do peso culpa. Nenhum outro poeta romântico conseguiu cantar os deleites das uniões carnais, da paixão, como Castro Alves, ninguém, como ele, ousou falar dos desejos, da volúpia e das delícias do amor entre homens e mulheres, com tanto realismo e verdade. 
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Zenóbia Collares Moreira Cunha

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A Solidariedade



Há dois momentos mágicos na vida em que podemos ser profundamente tocados e que nos fazem acordar para as coisas que verdadeiramente importam. Um desses grandes momentos acontece quando temos a oportunidade de ajudar alguém.

Somos muitas vezes surpreendidos com o bem estar, quase inexplicável que vem ao nosso encontro, quando resolvemos socorrer outra pessoa. Tudo fica mais bonito e nos sentimos leves, de bem com nós mesmos e com a nossa posição no mundo.

O outro grande momento, nós o vivemos quando temos a oportunidade de estar do outro lado dessa experiência. Quando alguém estende seus braços, de onde menos esperamos, para nos ajudar.

É um momento difícil porque estamos vulneráveis, mas, descobrir que não estamos sós é um agradável sentimento que nos conforta a dor. É como um milagre que vem, especialmente, bater à nossa porta.

Nessas ocasiões, é comum dizer ou escutar, que não há palavras para agradecer, mas nem é preciso, pois quem dá e recebe ajuda vive uma emoção que tem valor em si mesma. A solidariedade aproxima os homens e dá sentido á vida.


by Patricia kenney

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Um amor para sempre...


De todas as lembranças que guardo da minha infância as que me são mais caras, e as que mais me comovem são as relacionadas ao meu avô paterno, falecido, quando eu tinha quase 9 anos de idade, no dia 15 de setembro de 1947, data que considero a do final da fase mais feliz, leve, fantasiosa e mágica da minha vida. 
Com ele se foi a minha infância e teve início uma antecipada pré-adolescência instigada por força das circunstâncias, as mesmas que causaram a sua morte tão sofrida. Mas, não quero lembrar essas coisas agora... Neste momento, só quero lembrar de meu avô brincando comigo, me pondo no colo para me contar histórias maravilhosas, fazendo-me viajar no mundo encantado da fantasia, povoado de fadas, sacis, príncipes e princesas, bruxas e gnomos. Ele era o meu herói, meu cavalheiro andante, meu primeiro amor... Amor eterno que mesmo tendo se passado tantos anos de sua partida, sua presença continua poderosamente viva em minha alma. 
Meu amado Avô Alexandre.



quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O valor da amizade...


"Diz a sabedoria popular que “quem tem um amigo tem um tesouro”. Um provérbio árabe ensina que “pode-se viver sem um irmão, mas não sem um amigo”.
Realmente, a amizade é muito necessária em nossa vida. É uma das maiores manifestações de amor; é esvaziamento e doação, que pode ser oferecida às pessoas queridas, amadas.
Quando amamos sinceramente alguém, devemos fazê-lo sem nenhum sentimento de posse.
Nossa amizade deve ser sempre leal e desinteressada.
Normalmente, nosso amigo não é nosso parente, não tem nosso sangue e nem nosso nome.
É apenas aquela pessoa a quem muito queremos e nos afinamos.
Com ele, aprendemos a amar, renunciando a todo desejo de posse.
O verdadeiro amigo é aquele que está sempre pronto a doar.
O bom amigo se conhece na adversidade, numa palavra de conforto, num conselho e na mão amiga, que sempre nos infunde a confiança e segurança.
Como é bom saber que o amigo nos aceita como somos, sem críticas nem censuras, e que, apesar de nossos erros e defeitos, está sempre pronto a nos compreender e a nos querer bem.
Doe sempre o melhor de si aos amigos, demonstrando-lhes o valor da amizade, mas nunca espere ser correspondido.
Lembre-se de Jesus, que nos amou com fidelidade e sem limites.

Mesmo diante da fraqueza de Judas, que relevou as próprias faltas, na hora do beijo supremo da traição, ainda assim o considerou amigo.
Releve também as faltas e os erros de seus amigos e cultive sempre a amizade, pois ela se assemelha a uma plantinha que precisa ser irrigada, adubada e tratada com afeto e carinho.
O verdadeiro amigo é uma benção divina, porque ele nos fortalece nas horas difíceis, nos estimula e nos incentiva ao crescimento e ao progresso.
Cultivar amizades sinceras é como amealhar paz, alegria e progresso."

(Desconhecido)


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Meu encanto é ser pluralíssima!




Eu sou melodia, sou valsa, sou emoções, sou mar revolto bramindo com fúria e sou também a prata das águas que as estrelas fazem brilhar em noites de veludo. Tenho o encanto das encantadoras e a frieza dos desiludidos. Sou valsa, sou tango, sou calor e sou gelo. Sou verdadeira, incapaz de ser falsa, mas inteligente para já saber que a palavra é de prata quando o silêncio é de ouro. Sou melodia, sou valsa, sou emoções desavindas ou controladas.

Sou uma sonhadora, uma tonta e, uma querida ou inimiga passageira. Não me dou com o mal e sempre pedi ajuda para quem me traíu. Já fui traidíssima e amada como só os poetas sabem amar. Em delírio, em paixão, em loucura. Pisco os olhos às estrelas, afago as nuvens, dou o braço ao vento e falo com a infinidade dos Oceanos mas não sou marada. Sou filha deles!

Sou um sono e muitos sonhos onde já me aconteceu de tudo Já estive no Paraíso, já acompanhei Jesus, já sonhei com pessoas de quem não gosto mesmo nada e nunca conheci pessoalmente. Já afaguei algumas e já desanquei noutras. Sou assim: doce e amarga, tonta e certinha. Rodopio, danço, sorrio à Vida, às flores, aos animais, às pedras (“eu hei-de amar uma pedra…”) e… sorrio para ti, meu amor.

(Autora: Maria Elvira Bento)
(foto:Ken Browar/Deborah Ory)

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A vida é um turbilhão de emoções




Senta-te na beira do tempo, agarra as horas e vive os dias com sofreguidão como se 
fosses renascer em cada minuto.
Olha a vida de frente, abraça-a, agarra-a a ti e sorri, és a princesa do espaço do teu encantamento
Toca-lhe na Alma, invoca, insinua. 
A vida é um desafio que provoca, incendeia, desatina, cria asas que permitem voar para lá dos limites da solidão, dos abandonos, dos desertos, dos murmúrios das areias ora escaldantes ora gélidas. 
A vida é de voos, de ventos, de amanheceres luminosos, de entardeceres de fúria, de noturnos, de risos que enredam e fazem rodopiar num turbilhão de emoções. 
Mas tu, suave princesa do teu espaço de encantamento, angélica, sedutora, divina, esplendorosa, sentada na beira do tempo, vives cada dia como se nascesses em cada minuto.


(Maria Elvira Bento - Blog Brumas de Sintra)




Os sonhos têm luz própria, uma luz que não vem de nenhum Sol, de nenhuma Lua, de nenhum foco. Está em toda parte

(Mário Quintana)

domingo, 7 de junho de 2015

As palavras não conseguem dizer tudo...


Tudo o que é grandioso está além da linguagem.

Quando existe muito a dizer, é sempre difícil dizê-lo. Somente pequenas coisas podem ser ditas, somente trivialidades podem ser ditas, somente o mundano pode ser dito.

Sempre que você sente algo transbordante, é impossível dizê-lo, porque as palavras são muito estreitas para conter algo essencial.

Palavras são utilitárias, boas para o dia-a-dia, para as atividades mundanas. Elas começam a ficar limitadas quando você se move além da vida comum. No amor não são úteis, na prece se tornam completamente inadequadas.

Tudo o que é grandioso está além da linguagem, e, quando você descobre que nada pode ser expresso, então você chegou, então a vida está repleta de grande beleza, de grande amor, de grande deleite, de grande celebração.

Osho, em "Osho Todos os Dias – 365 Meditações Diárias"

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Vou dançar com o meu sonho...


Hoje, vou dançar com o meu sonho. Saltei o muro da realidade fingida e agarrei as imagens ainda vibrantes de um filme do qual fui a protagonista por benevolência, talvez, doutros desígnios mais poderosos que me movimentam o coração.

O sonho decorria fora do meu controlo; não o pensei, não o escrevi, não li o argumento, ninguém me pediu opinião.

Limitei-me a encostar a cabeça na almofada (macia), aninhar-me nos lençóis - como me preparasse para nascer– e entrar na esfera dos adormecidos. Nada mais do que isto.

Mas, já não se dorme como antigamente! As noites agora são povoadas de montanhas russas que cortam alturas, espaços, velocidades numa vertigem que nos baralha e emotiva emoções.

E o que deveria ser o tempo de abandono suave e envolvente, num ápice passa (pode) a uma tal e trepidante movimentação que eu, nem nunca nos meus melhores dias, pensei imaginar.

(By Maria Elvira Bento - Blog Brumas de Sintra)

terça-feira, 5 de maio de 2015

Amei...



Amei mais do que pensei que um dia iria amar, 
Amei menos do que muitas vezes pensava que amava. 
Mas amei. Intensamente. Perdidamente. Profundamente. Sedutoramente. 
Como só os apaixonados o sabem fazer. 
Amei em luz, em momentos breves, em pura tranquilidade e inarráveis desassossegos. 
Amei em silêncios e em júbilo. 
Amei e flutuei em tempo apaixonante, em tempo de música espalhada pelos nevoeiros, pelos ecos do vento, pela hostilidade dos mares, pelo adormecimento dos mesmos quando, como bilros rendilhados e adormecidos, ficam na praia a beijar areias, pedras, conchas e pés. 
Amei mais do que pensei que um dia amaria. 
Amei na saudade. Na distância, no desespero, nos desvarios dos reencontros. 
Amei quando foste o meu Sol e o riso da minha Vida. 
(Autora: Maria Elvira Bento)




quinta-feira, 30 de abril de 2015

A Idade e a mudança- Lya Luft

Certa vez, participei de um evento sobre o Dia da Mulher. Era um bate-papo com uma platéia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades. E por falar em idade, lá pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela,respondi. Foi um momento inesquecível… A plateia inteira fez um ‘oooohh’ de descrédito. Aí fiquei pensando: ‘pô, estou neste auditório há quase uma hora exibindo minha inteligência,  e a  única  coisa que provocou uma reação  calorosa  da mulherada foi  o fato de eu não  aparentar a idade que tenho? Onde é que nós estamos?
Onde não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado ‘juventude eterna’.
Estão todos em busca da reversão do tempo.
Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas. Há outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada.
A fonte da juventude chama-se “mudança”.
De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora. A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas. Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos. Mudança, o que vem a ser tal coisa?
Minha mãe recentemente mudou do apartamento enorme em que morou a vida toda para um bem menorzinho. Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu.
Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos. Rejuvenesceu.
Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um baita emprego por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela vai à praia sempre que tem sol. Rejuvenesceu.
Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.
Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna. Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho… Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar.

Olhe-se no espelho…

As pessoas são responsáveis e inocentes em relação ao que acontece com elas, sendo autoras de boa parte de suas escolhas e omissões.”
Lya Luft


quarta-feira, 29 de abril de 2015

Eu não existo sem mim


"Vinha passando pela vida sem me dar conta do quanto ela era importante pra mim. Eu me lembro que eu não sentia absolutamente nada, apenas deixava o tempo deslizar pelos meus dias... De repente, como por encanto eu descobri que eu existia, à partir daí tudo mudou.

Descobrir que eu não existo sem mim me fez pensar pra dentro, me enxergar como eu realmente sou e não como eu imaginava que eu fosse...

Às vezes passamos um tempo vivendo a vida que os outros traçaram para nós, assim sendo, não existimos.

E apesar de nunca ter me perdido, passei tempo demais para saber onde eu estava, por isso agora eu me procuro todos os dias... Quero estar sempre presente em mim!

Eu amo tanto a minha vida que, acho que se um dia eu tiver que parar de viver eu vou morrer!

By Marineide Dan


terça-feira, 28 de abril de 2015

Memória de ti...



Ainda bem que estava só. 
Ali a podia a fundo evocar.
 Subitamente, a sua memória picou-me a consciência, 
como um raio de luz diúrno, rápido, penetrante. 

Neste mesmo lugar estive há anos com sua alma.
Ela está dentro de mim como num santuário. 
Ocupa a minha capela-mor, 
e todos os outros afetos que vierem 
não serão mais que absidilos* (capelas menores), 
que florescerão apenas à volta da parte grande e indissolúvel 
deste Amor que me enriqueceu para sempre a vida - 
Queridíssima B.

(A. de Gurmão )
(Jardim de Braga, ao crepúsculo)
1959

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Eu sou...


Eu sou aquele que te faz sonhar. Aquele que te faz Amar.

Eu sou a Luz da tua Alma, a Fé do teu coração, a alegria do teu ser, a Vida que te sustenta.

Eu sou a Força que jamais te deixará, aquele a quem contaste as tuas alegrias e as tuas tristezas.

Eu sou a Energia que te impulsiona, passo a passo, rumo à tua realização e vitória.

Eu sou a Luz, a Força, o Amor e a Sabedoria, aquele que há tanto tempo procuras. Agora que me encontraste dentro de ti, contigo e através de ti brilharei, confirmando a todos que tiverem olhos para ver a Luz que um dia foi prometida.

Eu sou a poderosa Energia que a todos e a tudo sustenta. Em nome do Amor decreto: Vida, Luz, Amor, Liberdade em ti e no teu mundo. 

Agora e sempre. Eu sou o Sol que brilha no teu peito.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Um amor para sempre...


De todas as lembranças que guardo da minha infância as que me são mais caras, e as que mais me comovem são as relacionadas ao meu avô paterno, falecido, quando eu tinha quase 10 anos de idade, no dia 15 de setembro de 1947, data que considero a do final da fase mais feliz, leve, fantasiosa e mágica da minha vida. 
Com ele se foi a minha infância e teve início uma antecipada pré-adolescência instigada por força das circunstâncias, as mesmas que causaram a sua morte tão sofrida. Mas, não quero lembrar essas coisas agora... Neste momento, só quero lembrar de meu avô brincando comigo, me pondo no colo para me contar histórias maravilhosas, fazendo-me viajar no mundo encantado da fantasia, povoado de fadas, sacis, príncipes e princesas, bruxas e gnomos. Ele era o meu herói, meu cavalheiro andante, meu primeiro amor... Amor eterno que mesmo tendo se passado 67 anos de sua partida, sua presença continua poderosamente viva em minha alma. 
Meu amado Avô Alexandre.



Quase


Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. 
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. 
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém,preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Reflexões...




Só se alcança uma filosofia pessoal,
quando se constrói um pensamento que ultrapassa
o horizonte do nosso quotidiano...

A força do meu pensamento,
quando falo, não está só na razão,
está também no meu coração.
Penso inteiro comigo mesmo: é a razão e o sentimento
tudo fundido e dirigido ao meu interlocutor.

Amo tão profundamente a vida
que esta mesma vida me dá como que o prêmio:
continuar vivendo - em alegria e em comunicação com o UNIVERSO.
É esta comunicação que me sustenta
na embriagada contemplação do quotidiano cósmico!.

*******
A. de Gusmão
Quinta do Espírito Santo. 08/07/1989

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Solidão




Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar,
passear ou fazer sexo... Isto é carência.

Solidão não é o sentimento que experimentamos pela
ausência de entes queridos que não podem mais voltar... Isto é saudade.

Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às
vezes, para realinhar os pensamentos... Isto é equilíbrio.

Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos
impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida. .. Isto é um
princípio da natureza.

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é
circunstância.

Solidão é muito mais do que isto.

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão
pela nossa alma....

Francisco Buarque de Holanda



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O mundo se abre para quem está aberto.


Fomos criados para sermos independentes. Passamos dias editando nosso plano de independência, mas às vezes parece-me perigoso quando este plano se torna extremo. Claro, não é uma construção de um dia, mas de todo um processo de  crescimento/dogmas/crenças/etc. Senão, vejamos alguns "pensamentos hereditários" : 
1) Nascemos sós e assim morreremos;
2) é preciso confiar desconfiando;
3) não existem amigos que estarão ao seu lado sem interesse ;
4) se quiser alguem em quem confiar, confie somente em si mesmo; 
5) ..blablabla.

Cria-se a ideia de que quanto mais distante ou quanto mais armaduras você tiver, melhores serão os resultados, pois arriscar é atitude para os "desesperados/tolos/despreparados". Como estava dizendo, acabamos nos tornando individualistas como instinto de defesa, quando na verdade, muitas vezes não há ataque nenhum para "revidarmos". É uma guerra gratuita em que os únicos perdedores somos nós mesmos.

O individualismo extremado nos leva à solidão. A solidão é mais do que o sentimento de querer uma companhia ou querer realizar alguma atividade com outra pessoa não por que simplesmente se isola mas por que os seus sentimentos precisam de algo novo que as transforme (wikipedia). a) Quantas vezes temos a companhia de várias pessoas e ainda assim mantemos a sensação de solidão? Não há sensação melhor do que quando abrimos o corpo e coração para o mundo. Claro, corremos o risco de sermos traídos, enganados, etc. Mas ainda assim vale a pena, por várias razões. Digo apenas duas.

1. O peso da culpa, da impotência, da limitação e da pobreza de espírito tem um preço que o meu espírito não consegue pagar. É mais fácil cair e levantar, do que carregar este peso no corpo e na alma. É mais fácil andar com a cara limpa, sujar e lavar novamente, do que andar pintado e sentir a dor da mistura da pintura no corpo do "ser real".
2. As sensações são livres; os caminhos são livres..os sentidos são livres..você já olhou pro mundo com o coração aberto? para o mar? ..nem falo de outras sensações corpóreas como o abraço despreocupado se o outro está munido de alguma arma ou pronto para o ataque quando for estender o braço.

b) Mas também, Quantas vezes estamos sós e ainda assim mantemos a sensação de companhia?

Existem pessoas que mesmo que não morem na sua casa, transmitem a sensação de companhia. Companhia não é sensação física. Há pessoas que apesar de estarem ao lado, a única sensação que nos passa é a corpórea. Há pessoas que estranhamente te acompanham em silêncio e até ocupam um pedacinho de você. Isto acontece quando menos esperamos, mas nunca quando estamos fechados. Pois ao selecionar tanto o que deve ou não entrar pela armadura, acabamos perdendo a mágica, aquela sensação do simples. E nada se compara à sensação do que é simples.

O mundo se abre para quem está aberto. Abrem-se as portas e mais um céu para os nossos dons... Quem ganha, mesmo, somos nós.

Autora: Jéssica C. escritora e poeta