terça-feira, 22 de abril de 2014

Uma Festa Inesquecível...


Eu não tinha nada daquilo, meus aniversários sempre passavam em branco, nem um bolinho simples para comemorar com a família. Ganhava uma boneca de minha mãe, a indiferença do meu pai e muitos afagos de meu inesquecível avô. Mas, não sentia inveja. Nem sabia o que era isso. Era como se eu soubesse que era para ser daquele jeito mesmo, porque festas eram somente para meninas ricas. Por isso, nunca esqueci do presente que o noivo de minha irmã mais velha me deu, quando fiz quatro anos de idade: uma mobília azul completa de bonecas, com cozinha e tudo, inclusive panelinhas, bonequinhas. Eu passava horas arrumando aquela casa imaginária e vivendo nela minhas venturas infantis, momentos de plenitude que só as crianças sabem viver.
Guardei este precioso brinquedo até ficar mocinha, por volta dos 16 anos, e perder o interesse por bonecas (o que nunca perdi completamente).  Não sei se por ter recalcado o desejo infantil de ter uma festa de aniversário, não se por algum processo psicológico para me proteger da mágoa de nunca ter tido uma, o fato é que, depois de adulta, passei a detestar a data do meu aniversário, receber parabéns, presentes e tudo o mais que se relacionasse a esse dia.

Minha primeira festa de aniversário, a festa que nunca havia tido, aconteceu inesperadamente  e da forma mais emocionante, carinhosa e mágica  que se possa imaginar nos meus 46 anos de idade.  Aquele seria mais um aniversário que eu ignoraria, se não fosse um bando de alunas amigas, jovens e ruidosas, com idade de serem minhas filhas, que, esbanjando alegria e cantorias de “parabéns para você”, invadiram meu apartamento, pelas portas da frente e da área de serviço, trazendo nas mãos uma festa inteira, ou melhor: um banquete completo, além dos presentes que foram parar em minha cama, tal como eu vira na cama das minhas primas e das minhas filhas (estas tiveram todas as festas que eu não tive).
Foi uma das mais fortes emoções de minha vida! Não pela festa que me fizeram em si, mas, pelo gesto de amor, de carinho, de cumplicidade que, como em um passe de mágica, curaram todas as feridas da minha infância, passaram uma esponja naquelas imagens magoadas, substituindo-as pelas novas imagens que pareciam trazidas das páginas de um conto de fadas.
Não sei o que fiz para merecer aquela magnífica demonstração de afeto e calor humano. Não conseguia perceber qual era a graça que elas achavam em uma pessoa tão mais velha e, às vezes, amarga, depressiva e complexa. O que sei é que o bem que me fez perdura até hoje e o levarei comigo até os derradeiros dias dessa minha atormentada e maravilhosa passagem pela vida. Obrigada meninas queridas... Amigas para sempre.


sábado, 12 de abril de 2014

Uma execrável hipocrisia.

Sou uma mulher com mais de sessenta anos de idade, de bem com as rugas, com os cabelos brancos e com as limitações físicas naturais nos sexagenários. Sou, portanto uma pessoa da terceira idade, ou melhor dizendo, uma pessoa “velha”. Sim... A palavra certa é esta: “velha”, como foram a minha mãe e minha avó, com muita dignidade e elegância, sem problematizarem os efeitos da passagem dos anos, sem lançarem mão de eufemismos idiotas para disfarçarem a indisfarçável velhice, como a abominavelmente hipócrita expressão “melhor idade” para nomearem o grupo etário no qual se integravam. Na época delas, este tipo de eufemismo ridículo não existia, da mesma forma que não haviam ainda criado outros igualmente cretinos como “deficiente visual” (cego), “afrodescendente” (negro), “funcionária do lar” (empregada doméstica), e centenas de outros, dentre os quais figura o deletério “melhor idade”. Execro essa abominável expressão, decerto criada por um jovem destituído da mínima noção da realidade dos velhos, sem nenhum resquício de sensibilidade para perceber as imensas e crescentes perdas e limitações que causam dor, frustrações, sofrimento, tristezas e solidão nos idosos.
Como pode alguém julgar a melhor idade de um ser humano justamente a faixa etária na qual chegam as dolorosas doenças reumáticas dificultando a locomoção, as falhas da memória causam vexames, a visão, a audição, o olfato e o paladar sofrem alterações, a liberdade de sair sozinha/o começa a ser controlada pelos zelosos familiares, Alzheimer, mal de Parkinson, AVCs, diabetes, pressão alta e colesterol alto são ameaças à qualidade de vida...
Portanto, para mim, a expressão “melhor idade”, além de ser uma lastimável e desrespeitosa ironia, é um deboche abominável! A infeliz expressão “Melhor Idade” não passa de uma execrável hipocrisia de gente piegas, chegada a uma frescurite que, no fundo tem preconceito contra a antiga, consagrada e adequada expressão “velha” e “velho”, tem preconceito contra a “velhice” e, por isso, tenta adoçar com eufemismos cretinos o que sabem ser a mais difícil fase da vida.

A melhor idade é a infância! Tempo da inocência, das fantasias, das ilusões e da crença em um mundo mágico e perfeito!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Um poeta é só isto: um modo de ver.

“Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: o modo de ver.”
O diabo é que de tanto ver, a gente banaliza o olhar.
Vê não-vendo.
Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver.
Parece fácil, mas não é.
O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê.
Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como ele era? Sua cara? Sua voz? Como se vestia?
Não fazia a menor idéia. Em 32 anos, nunca o viu.
Para ser notado, o porteiro teve de morrer.
Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser que também ninguém desse por sua ausência.
O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver: gente, coisa, bichos. E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.
O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto ninguém vê.
Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas.
Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, ficam opacos.
É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.
Otto Lara Rezende