domingo, 23 de fevereiro de 2014

Noite de Plenilúnio


Oh! saudação de prata, 
com sorriso mais misterioso que o da Gioconda!
 Lua cheia, que me aparece de repente 
no claro azul do céu noturno, 
entre as afastadas estrelas, e um planeta (saturno?)
Que maravilha, sempre maravilha! 
Uma mensagem minha foi imediatamente lançada
para o espaço pelo meu pensamento, 
encantado pelo espetáculo de luz 
pura e silenciosa. 

(A. de Gusmão)
(18/11/1975, horas depois de um eclípse que não vi)

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Os alunos me aprovaram


Tenho muitas recordações felizes dos tempos em que lecionava literatura portuguesa na UFRN. Eu era uma professora apaixonada pela profissão que escolhera, a poesia, a ficção dos autores lusitanos me encantavam. Assim sendo, eu irrompia na sala de aula com todo gás, disposta a fazer meus alunos descobrirem tudo quanto me fascinava nos textos literários.
Todavia, era comum, logo no começo das aulas, alguns alunos dizerem que detestavam Os Lusíadas, que não gostavam de poesia romântica e menos ainda da ficção. Ouvia aquelas barbaridades com bom humor e disse-lhes: Escutem-me. Não estou nada perplexa com o que estou ouvindo, pois já houve um tempo em que eu tive a santa ignorância de dizer à minha professora de literatura Brasileira que não gostava de Machado de Assis, do qual só conhecia os romances da sua fase romântica. Depois que li os da fase realista, não só apaixonei-me pela obra do autor como fiquei cheia de vergonha d pelo que havia dito. Assim sendo, vamos combinar uma coisa. Se ao final do seminário sobre Os Lusiadas eu não tiver conseguido fazê-los amar a epopeia camoniana, e se ao final do curso não tiver conseguido fazê-los ver com outros olhos as poesias de Almeida Garrett e a ficção de Camilo Castelo Branco, eu desisto de ser professora.
Logo na apresentação do primeiro seminário sobre Os Lusíadas, o grupo responsável pelo Canto I estava entusiasmadíssimo, especialmente pela descoberta do discurso maneirista que embasava a mensagem do texto camoniano. Claro que eu os encaminhei para estudar a epopeia como um texto maneirista, o que os obrigou a estudar este estilo de época e a redescobrir outra leitura da epopeia, bem mais rica, crítica distanciada dos padrões renascentistas. Daí por diante foi uma sucessão de excelentes seminários, culminando com os dois últimos cantos da epopeia levando os alunos ao espanto com a visão particularíssima do poeta acerca do amor carnal, da mulher, da sensualidade e da sacralidade do erotismo. Com a poesia de Garrett não tivemos semelhante entusiasmo, nem eu esperava tal coisa, mas compreenderam as motivações do poeta. 
 Enquanto eles liam um romance de Camilo, eu lia um conto na classe com eles, comentando, minuciosamente as facetas do estilo camiliano, as ironias, a mordacidade, as críticas e, especialmente, as peripécias do narrador. 

Moral da história: não precisei deixar de lecionar! Os alunos me aprovaram!


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Saudades de mim outrora!


É muito comum ouvirmos mulheres de todos os tipos queixando-se de suas vidas, principalmente quando estão há muito tempo envolvidas com alguém. Queixam-se de que não dançam mais, que não cantam, que não exercem a sua sensualidade, que estão ficando velhas e secas mais depressa do que imaginavam.
Queixam-se da falta de romantismo em que suas vidas se inseriram. Queixam-se dos homens que amam e dos filhos que este amor gerou. Queixam-se de Deus e do mundo ao seu redor. Chegam quase a se arrepender da opção de partilhar a vida com alguém.
Numa relação estável é muito comum que a mulher conste como a parte menos conformada da situação e que logo, com poucos anos de convivência, se sinta anulada e cobrando caro toda a dedicação dispensada ao convívio (ao bom e sereno convívio), entre ambos.
Um erro muito frequente está intrínseco ao fato de a mulher fantasiar demais antes de se relacionar intimamente e estavelmente com um homem. Além disso, ela tem uma enorme tendência a se responsabilizar por toda a felicidade que o casal possa ter e mais tarde, cansada de assumir sozinha todos os sonhos e as ilusões de romance eterno entre os dois, ela passa de fada encantadora a bruxa cobradora.
Não que os homens não tenham sua parcela de responsabilidade na monotonia e falta de graça que circunda a vida do casal, é claro que tem. Eles poderiam ao menos prestar atenção ao que é manifestado pela sua mulher como fator de contentamento dentro do relacionamento.
Sair para dançar com ela uma vez por mês, elogiar sua postura e aparência de vez em quando, isso não mata ninguém, convenhamos. Acontece que, com sua natureza hermética, o que é uma característica de grande parte dos homens, não participa dos planos da parceira para uma vida cercada de emoções e contribui sobremaneira para a falência de todo e qualquer projeto de comporem um casal diferente.
A mulher, que sonha alto demais e tem uma enorme dificuldade em se adaptar a uma vida a dois mais serena e quase isenta dos suspiros dos contos de fada, sofre verdadeiramente. Frustra-se, entristece e se revolta.
No sexo não é muito diferente. O comportamento sexual é inerente ao sucesso da relação. Não existe bom relacionamento conjugal sem bom sexo e não existe bom sexo sem um bom relacionamento conjugal. O que às vezes abala esta estrutura é o fato de um dos dois, e muito mais as mulheres, acharem que em toda vez que o sexo acontecer, ter que ser algo perfeito e cercado de sentimentos, emoções, fantasias, pétalas de rosas, velas e todo o tipo de aparato que deve sim ser usado o máximo possível, mas que às vezes é perfeitamente dispensável. E no caso deles... Precisa mesmo falar?

LEIA MAIS, clicando na frase abaixo

Meu sonho de te amar.



Na superfície do teu másculo corpo moreno
irradiado de sol e gotículas de água cristalina,
navegam meus desejos 
famintos de carícias e beijos.

Os teus olhos negros faiscantes e profundos
 como um abismo de prazeres e perigos
fazem-me descer aos subterrâneos de mim mesma,
à parte oculta e à vibração inquietante do meu mágico,
absoluto e inamovível impulso para te amar.

Olho à minha volta, 
aprisionada na fina rede da minha angústia 
de te querer tanto e tanto... 
Perdida no centro de mim mesma, 
envolvida na névoa dos meus sonhos,
gravito livre e alada, leve como plumas
na poderosa imensidão dos séculos.

Tudo isto tem uma beleza luminosa!
Na quietude oblíqua desta hora solar,
 que me envolve, aquece e fascina.
Divago e sonho no meu sonho de te amar,
cristalizo meu momento de inquieta alegria.

Independo do tempo. Sou livre!
Guardo em mim tudo quanto sonhei, 
tudo que foi grande e belo,
realizado ou não, apenas imaginado ou não.
O que importa é que existiu em mim

Zenóbia Collares Moreira


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Meu coração! Aguenta-te!


Sou como uma corda tensa e vertical,
cimentada na terra e perdida no céu, ressoando a tudo o que é vivo 
ou que é vida transposta para a Arte.

Meu coração! Aguenta-te!
Vida, poupa-me!

Sou um soldado para te servir fielmente como poucos,
atento a todos e aos mais ínfimos sinais
reveladores da tua presença 
 e da tua expressão.

Por toda a parte sinais de vida,
de luz, de música, de movimentos e de gestos
sendo indiferentes aos que sonharam e jamais puderam
participar desta natural e inesquecível alegria de existir!...
E é nestes instantes mais vivos que me dói a vida. 
Uma grande comoção se apodera de mim.

Há dias em que coisas de certo modo amargas se sucedem,
Então, confio no "esquecimento" que as fará submergirem
 na corrente constante da vida renovada e obscura.


(Adriano de Gusmão)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Éramos felizes e não sabíamos



Na minha inarredável crença no Carpe Diem horaciano e na sabedoria que reside na atitude de valorizarmos o tempo presente, evitando saudosismos desneces- sários ou românticos devaneios acerca de um futuro insondável, habituei-me a não me prender a recordações, a não cultivar sauda- des que me deixariam com aquele incômodo sentimento de perda a escurecer-me por dentro. Todavia, hoje, tive uma recaída e fiz uma longa viagem de volta aos meus outroras! Peço desculpas a quem não aprecia textos longos e talvez pobres de interesse, pois que fala de uma vidinha um tanto sem brilho, aos olhos dos outros. Mas que, para mim, constitui um tesouro de lembranças que ilumina o meu presente e aquece-me o coração para sempre.
Até algum tempo atrás, quando observava a vida das moças nos dias atuais, a liberdade sem limites que têm, inclusive a sexual, a forma como se comportam, como pensam e falam, como se vestem e se divertem,  vinham-me à mente algumas lembranças da época da minha juventude. A comparação era inevitável, pois era tudo tão espantosamente diferente! Mas não sei ao certo se era melhor ou pior. Na época, achávamos natural, não tínhamos noção de que poderia ser diferente.


Hoje, já tenho o distanciamento necessário para estabelecer comparações e perceber o quanto foi reprimida a vidinha que nos permitiu viver a sociedade severa dos anos cinqüenta. Tanto o meio social quanto os nossos pais eram repressores e vigilantes, cerceavam a nossa liberdade e nos impunham uma série de limites que não ousávamos transgredir. Namorava-se na calçada de frente a casa ou na varanda, sair sozinha com o namorado, nem pensar! Beijar na boca... só se fosse beijo roubado, escapando aos vigilantes pares de olhos que não nos perdiam de vista. Casávamos virgens, depois de um longo namoro e noivado (ainda era costume o rapaz pedir a mão da moça em casamento ao seu pai).

Mas, haviam coisas maravilhosas e inesquecíveis, como as serenatas que me acordavam na madrugada com românticas canções e acordes de violão. Não me casei com o dono da voz. Não que nos faltassem amor e vontade! Mas esta já é outra história de interferência familiar bem típica da época... melhor esquecer!
Quando explodiu o Rock in roll, e Elvis Presley tornou-se moda, mania e paixão, veio junto a interdição: moça decente não podia dançar o frenético e obsceno ritmo norte-americano. Seria um escândalo! A garota ficaria “falada”! Quem iria querê-la para esposa?! Foi um ai, Jesus! Fãs incondicionais de Elvis, eu e meu irmão não resistimos à tentação e demos uma fugidinha até um clubinho que havia perto da nossa casa, para balançar os esqueletos naquela consumição, com uma turma do colégio. Nem gosto de lembrar o pandemônio que fez a minha mãe, quando retornamos. Só comigo, é claro! Meu irmão “era homem”, podia tudo!
Éramos privadas de muitas coisas que hoje são banalidades: não podíamos ingerir bebidas alcoólicas, cigarro só depois dos 21 anos e biquíni era traje de moça “falada”. Rapaz que tirasse a virgindade da namorada, era obrigado a “salvar a honra” da moça, casando-se com ela, quisesse ou não. Pois moça “não dava”, se “desse” levava o rótulo de “moça perdida”, com a qual nenhum rapaz que se prezasse casaria. A mulher não tinha liberdade, quando solteira obedecia aos pais, depois de casada apenas mudava de dono e passava a ser tutelada pelo marido. Poucas trabalhavam fora de casa e raras tinham permissão para saírem desacompanhadas (para não caírem na boca do povo).
Mas, nem tudo era negativo, tínhamos formas de diversão que nos proporcionavam muita satisfação. Sem televisão para roubar os diálogos familiares, havia mais proximidade entre as pessoas, havia o costume de fazer visitas a amigos e familiares, oportunizando muito mais convivência e aconchego com primos, tios e velhos amigos. Na rua onde eu morava, os vizinhos eram nossos amigos e nas noites calorentas de Verão juntavam-se todos para, sentados em cadeiras na calçada, apreciar o luar e conversar, enquanto a criançada brincava de roda, de amarelinha, de pular corda, em feliz alarido etc.

LEIA MAIS, clicando na frase abaixo

Reflexões




Só se alcança uma filosofia pessoal,
quando se constrói um pensamento que ultrapassa
o horizonte do nosso quotidiano...

A força do meu pensamento,
quando falo, não está só na razão,
está também no meu coração.
Penso inteiro comigo mesmo: é a razão e o sentimento
tudo fundido e dirigido ao meu interlocutor.

Amo tão profundamente a vida
que esta mesma vida me dá como que o prêmio:
continuar vivendo - em alegria e em comunicação com o UNIVERSO.
É esta comunicação que me sustenta
na embriagada contemplação do quotidiano cósmico!.

*******
Adriano de Gusmão
Quinta do Espírito Santo. 08/07/1989

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Na doce vibração do teu abraço



Na doce vibração do teu abraço
Sinto tua multifacetada essência:
cálido roçar de brisa na folhagem,
suave assomo de aromas campesinos,
ameno raio de sol já declinante,
promessas de beijos e carícias delirantes
de corpos unidos num rodopiar de vertigens.
No arfar do teu corpo abrasado e tenso
sinto o aceno mudo para viajar contigo
na solidão dos astros, no bulício das estrelas.
Sob a grande paz do firmamento sem lua,
envoltos no manto da noite, enfim, nos amamos.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

“Vaga-lumes quiescentes”,



O meu deslumbramento com os vagalumes remonta à minha infância, quando eu era apenas uma menininha muito ensimesmada, sonhadora e dada a devaneios extraordinários, capazes de metamorfosear a realidade palpável em outras realidades fantásticas! Talvez por causa desse meu pendor para dar rédeas soltas ao meu imaginário, tenha me interessado pelos vagalumes. Eu me tornara verdadeiramente fascinada por aquelas luzinhas voadoras que apareciam em todas as noites do verão, trazendo magia e mistério ao meu cismar de criança solitária.
Sentadinha num toco de árvore derrubada, na quietude daquele recanto do jardim, envolvida no perfume dos bugaris, angélicas e jasmins, tão bem cuidados pelas mãos amorosas da minha avó, eu observava aqueles seres pequeninos que desafiavam minha capacidade de decifrar o mistério que encerrava o seu piscar no negrume da noite, ponteando o espaço com focos luminosos, parecendo estrelinhas cadentes que, fugidas do céu, vinham brincar no jardim da casa da vovó.
Hoje, sem áreas verdes aos arredores das casas, nas noites de verão já não aparecem vagalumes, como acontecia no tempo em que eu era criança. Também eu já não teria os jardins perfumados da vovó, estes jazem sob um prédio, construído sobre aquele espaço mágico. Já não sonho como sonhava em meus outroras, já não me imagino um vagalume, voejando pelos jardins, rivalizando com a luminosidade das estrelas! Com poderes de iluminar o mundo ao meu redor com a minha própria luz, rompendo as sombras, dentro e fora de mim, com o meu milagre luminescente...
Os sonhos das crianças, às vezes, assumem proporções gigantescas, ignoram os limites do impossível, avizinham-se do absurdo fantástico!
Estas lembranças, tão poéticas e felizes, ressurgiram em meu espírito depois que, há tempos atrás, tive a grata surpresa de encontrar, casualmente, um texto estupendo, escrito por uma bióloga, inspirado na luz dos vagalumes.
Fiquei perplexa com a sensibilidade e a força poética da autora, especialmente por ser uma pesquisadora de uma área do conhecimento tão distanciada do universo da poesia. Lembrei-me então de Fernando Pessoa e três dos seus principais heterônimos, Ricardo Reis (um médico), Álvaro de Campos (um engenheiro), Alberto Caeiro (um camponês, com poucos estudos) e ele mesmo, um homem de vasta cultura que nunca concluíra o curso de letras. Então compreendi que o dom da poesia independe da profissão ou do grau de estudos do poeta. Entendi que quem é poeta, já nasce com a essência da poesia decalcada na alma, à espera apenas do momento propício, no qual as palavras irão saltar da sua sensibilidade para a perplexidade da folha de papel em branco, na forma de versos esplêndidos ou de uma magnífica prosa poética, como a que nos oferece o texto “Vaga-lumes quiescentes”, da autoria da Dra. Maisa Splendore Della Casa, professora e pesquisadora na área da Biologia, da USP.


“Vaga-lumes quiescentes”,

“A intensidade da luz da alma recolhe-se timidamente no breu do que sou ou tento ser.
Luzes ao redor, luzes pobres disfarçadas na ausência da escuridão,
o intenso é sentir a escuridão do sol e a clareza da noite.
Se não tenho luz própria, devo viver de dia, gozar da claridade da natureza, pois ao meio a meus disfarces, não preciso provar que tenho luz própria,;nem sei se a tenho, está de dia. Ninguém reconhecerá.
Caso a luz não se faça presente, não devo aparecer na noite, ou assumo minhas formas sombrias e me mantenho no anonimato da pez ou incorporo a oxidação biológica dos vagalumes permitindo que a energia química seja convertida em luminosa.
Defendo-me. Defendo-me ou caço. Serei caçador de mim, dos meus vestígios de luz quiescentes, para depois, iluminar o resto da alma sombria e, aí sim, vagaluminarei pela noite de mim mesma."

É realmente extraordinária a sensibilidade de Maísa Splendore Della Casa. A sua visão poética, incidindo sobre um pequeno ser da natureza, objeto dos seus estudos, é tão maravilhosa quanto a sua capacidade de transformar em poesia o fenômeno da luminescência dos vagalumes, tomado, inclusive, como metáfora do seu próprio ser.

O que seria de nós sem a poesia, sem os poetas e a sua especialíssima visão do mundo?!
_____________________________
Autora: Zenóbia Collares Moreira Cunha


Volúpia...


No aconchego do teu abraço, 
descobri o desejo.
Juntos buscamos a plenitude absoluta do prazer no amor .
Explodindo em nossa volúpia, 
rodopiamos em volutas, 
como a órbita de uma dança, de um ritual divino,
unidos até ao limite, 
entrelaçados os nossos corpos 
um no outro confundidos, 
num mútuo e ardente entendimento,
cerrados num abraço ondulante
na cálida umidade insaciável dos nossos ardentes beijos,
na recíproca vertigem, 
no alucinante serpentear ,
 até ao limite,
ao estertor, ao silêncio
 que preludia a plenitude.
Mudos e completos, demo-nos as mãos e sorrimos  
para a beleza da vida, 
para os mistérios do amor!


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Caminho...

                         
Caminho

Ah, ter a evidência ofuscante
Do milagre que somos:
Chama do silêncio
Delírio sem vertigem

Desejo te amar... demais... e tanto!
Sobre a tua água
A escorrer-me agora... pelo corpo
Praia deserta... desabitada...
Sombra nua do meu adiado desejo

Nela lavo-me, purifico-me
busco um tempo anterior à vida

Aprendemos a verdade... juntos? ...Onde?
Na transparência oculta de cada gota, talvez....
Talvez na noite orvalhada
no limiar de um tempo perdido,
no deslumbramento da vida que não vivemos

No recomeço do começo
no esplendor ofuscante da madrugada
desabrocha translúcida a flor da comunhão...

Na seiva sôfrega dos lábios amantes
os teus e os meus...
E, num palpitar de fôlego exausto
descobrimos o caminho da plenitude...

Chegamos...
_____________________

Autora: Zenóbia Collares Moreira


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Desejo...




Hesitante e leve, a tua mão deslisa 
na morna ondulação do meu corpo desnudo...
Entre os teus dedos trêmulos e a minha pele,
percorre, súbito, um delicado arrepiar de lascívia,
um tímido impulso de doce e inadiável entrega.

Na ternura insistente dos teus ousados afagos,
ecoa inaudível o convite a rodopiar contigo
na vertigem delirante do teu ardente abraço.
Vibra em crispações o meu abrasado desejo,
na sôfrega busca da urgência dos teus beijos.

Queima-me a chama da volúpia, busco-te mais ainda
na urgência inadiável da entrega plena,
na busca da completude que só tu me dás. 
Perdemos-nos enfim, exauridos, ofegantes e mudos,
na alegria pagã da plenitude do amor consumado.


(Zenóbia Collares Moreira Cunha)


Plenitude


Na plenitude da impassível madrugada
ouço a mim mesma nos ecos do meu silêncio
que invadem o espaço da minha lucidez.
Sufoco o grito da inquieta memória
afasto as sombras do meu desassossego
quebro as amarras que me prendem a ti.

Ressurjo inteira, renascida e renovada
na intensa luminosidade do meu ser.

Recriada, regresso ao orvalho da madrugada
busco a frescura de uma verdade translúcida.
Impassível, desfaço a distância dos anos
abraço sem receios o outrora sem tempo
penetro resoluta nessa longínqua harmonia
adentro a solene perfeição deste silêncio..

(Zenóbia Collares Moreira Cunha)