terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

“Vaga-lumes quiescentes”,



O meu deslumbramento com os vagalumes remonta à minha infância, quando eu era apenas uma menininha muito ensimesmada, sonhadora e dada a devaneios extraordinários, capazes de metamorfosear a realidade palpável em outras realidades fantásticas! Talvez por causa desse meu pendor para dar rédeas soltas ao meu imaginário, tenha me interessado pelos vagalumes. Eu me tornara verdadeiramente fascinada por aquelas luzinhas voadoras que apareciam em todas as noites do verão, trazendo magia e mistério ao meu cismar de criança solitária.
Sentadinha num toco de árvore derrubada, na quietude daquele recanto do jardim, envolvida no perfume dos bugaris, angélicas e jasmins, tão bem cuidados pelas mãos amorosas da minha avó, eu observava aqueles seres pequeninos que desafiavam minha capacidade de decifrar o mistério que encerrava o seu piscar no negrume da noite, ponteando o espaço com focos luminosos, parecendo estrelinhas cadentes que, fugidas do céu, vinham brincar no jardim da casa da vovó.
Hoje, sem áreas verdes aos arredores das casas, nas noites de verão já não aparecem vagalumes, como acontecia no tempo em que eu era criança. Também eu já não teria os jardins perfumados da vovó, estes jazem sob um prédio, construído sobre aquele espaço mágico. Já não sonho como sonhava em meus outroras, já não me imagino um vagalume, voejando pelos jardins, rivalizando com a luminosidade das estrelas! Com poderes de iluminar o mundo ao meu redor com a minha própria luz, rompendo as sombras, dentro e fora de mim, com o meu milagre luminescente...
Os sonhos das crianças, às vezes, assumem proporções gigantescas, ignoram os limites do impossível, avizinham-se do absurdo fantástico!
Estas lembranças, tão poéticas e felizes, ressurgiram em meu espírito depois que, há tempos atrás, tive a grata surpresa de encontrar, casualmente, um texto estupendo, escrito por uma bióloga, inspirado na luz dos vagalumes.
Fiquei perplexa com a sensibilidade e a força poética da autora, especialmente por ser uma pesquisadora de uma área do conhecimento tão distanciada do universo da poesia. Lembrei-me então de Fernando Pessoa e três dos seus principais heterônimos, Ricardo Reis (um médico), Álvaro de Campos (um engenheiro), Alberto Caeiro (um camponês, com poucos estudos) e ele mesmo, um homem de vasta cultura que nunca concluíra o curso de letras. Então compreendi que o dom da poesia independe da profissão ou do grau de estudos do poeta. Entendi que quem é poeta, já nasce com a essência da poesia decalcada na alma, à espera apenas do momento propício, no qual as palavras irão saltar da sua sensibilidade para a perplexidade da folha de papel em branco, na forma de versos esplêndidos ou de uma magnífica prosa poética, como a que nos oferece o texto “Vaga-lumes quiescentes”, da autoria da Dra. Maisa Splendore Della Casa, professora e pesquisadora na área da Biologia, da USP.


“Vaga-lumes quiescentes”,

“A intensidade da luz da alma recolhe-se timidamente no breu do que sou ou tento ser.
Luzes ao redor, luzes pobres disfarçadas na ausência da escuridão,
o intenso é sentir a escuridão do sol e a clareza da noite.
Se não tenho luz própria, devo viver de dia, gozar da claridade da natureza, pois ao meio a meus disfarces, não preciso provar que tenho luz própria,;nem sei se a tenho, está de dia. Ninguém reconhecerá.
Caso a luz não se faça presente, não devo aparecer na noite, ou assumo minhas formas sombrias e me mantenho no anonimato da pez ou incorporo a oxidação biológica dos vagalumes permitindo que a energia química seja convertida em luminosa.
Defendo-me. Defendo-me ou caço. Serei caçador de mim, dos meus vestígios de luz quiescentes, para depois, iluminar o resto da alma sombria e, aí sim, vagaluminarei pela noite de mim mesma."

É realmente extraordinária a sensibilidade de Maísa Splendore Della Casa. A sua visão poética, incidindo sobre um pequeno ser da natureza, objeto dos seus estudos, é tão maravilhosa quanto a sua capacidade de transformar em poesia o fenômeno da luminescência dos vagalumes, tomado, inclusive, como metáfora do seu próprio ser.

O que seria de nós sem a poesia, sem os poetas e a sua especialíssima visão do mundo?!
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Autora: Zenóbia Collares Moreira Cunha


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