sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Os alunos me aprovaram


Tenho muitas recordações felizes dos tempos em que lecionava literatura portuguesa na UFRN. Eu era uma professora apaixonada pela profissão que escolhera, a poesia, a ficção dos autores lusitanos me encantavam. Assim sendo, eu irrompia na sala de aula com todo gás, disposta a fazer meus alunos descobrirem tudo quanto me fascinava nos textos literários.
Todavia, era comum, logo no começo das aulas, alguns alunos dizerem que detestavam Os Lusíadas, que não gostavam de poesia romântica e menos ainda da ficção. Ouvia aquelas barbaridades com bom humor e disse-lhes: Escutem-me. Não estou nada perplexa com o que estou ouvindo, pois já houve um tempo em que eu tive a santa ignorância de dizer à minha professora de literatura Brasileira que não gostava de Machado de Assis, do qual só conhecia os romances da sua fase romântica. Depois que li os da fase realista, não só apaixonei-me pela obra do autor como fiquei cheia de vergonha d pelo que havia dito. Assim sendo, vamos combinar uma coisa. Se ao final do seminário sobre Os Lusiadas eu não tiver conseguido fazê-los amar a epopeia camoniana, e se ao final do curso não tiver conseguido fazê-los ver com outros olhos as poesias de Almeida Garrett e a ficção de Camilo Castelo Branco, eu desisto de ser professora.
Logo na apresentação do primeiro seminário sobre Os Lusíadas, o grupo responsável pelo Canto I estava entusiasmadíssimo, especialmente pela descoberta do discurso maneirista que embasava a mensagem do texto camoniano. Claro que eu os encaminhei para estudar a epopeia como um texto maneirista, o que os obrigou a estudar este estilo de época e a redescobrir outra leitura da epopeia, bem mais rica, crítica distanciada dos padrões renascentistas. Daí por diante foi uma sucessão de excelentes seminários, culminando com os dois últimos cantos da epopeia levando os alunos ao espanto com a visão particularíssima do poeta acerca do amor carnal, da mulher, da sensualidade e da sacralidade do erotismo. Com a poesia de Garrett não tivemos semelhante entusiasmo, nem eu esperava tal coisa, mas compreenderam as motivações do poeta. 
 Enquanto eles liam um romance de Camilo, eu lia um conto na classe com eles, comentando, minuciosamente as facetas do estilo camiliano, as ironias, a mordacidade, as críticas e, especialmente, as peripécias do narrador. 

Moral da história: não precisei deixar de lecionar! Os alunos me aprovaram!


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